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miércoles, 27 de octubre de 2010

diario de Curitiba (4)

Anoche, paramos para sacar una foto frente a la casa de Dalton Trevisan. Rafael Urban, nuestro anfitrión, nos contó que se trata de una especie de leyenda viva de Curitiba, en el molde roto del escritor-recluso alla Salinger. Trevisan tiene 85 años y dio su última entrevista, tal vez la única, hace medio siglo, en 1959, cuando ganó un premio por su primer libro, Novelas nada exemplares. Cuando tenía veinte años dirigió durante unos pocos números una revista que quedó en la historia de Curitiba, Joaquim (ver foto abajo). Rafael, un hombre habitualmente medido, asegura que Trevisan es el mayor escritor vivo del Brasil, nada más ni nada menos. (Hay que decir que Rafael se entusiasma cuando se trata de su ciudad natal: nos cuenta que el Teatro Municipal de Curitiba fue el primer teatro de Brasil, o el más grande, o ambas cosas; que la Universidad de Paraná es la más antigua del país; que su club el Atlético Paranaense no sé qué, etc, etc).

Trevisan escribe textos muy cortos, cuentos o esbozos. Parece que pasa sus originales a algunas pocas personas de su confianza pero también a desconocidos. La novia de un amigo de Rafael cada tanto recibe alguno. El amigo de Rafael es fanático de Trevisan. La novia averiguó el recorrido cotidiano del viejo, lo siguió sigilosamente dos o tres veces, hasta animarse a abordarlo un día en el supermercado. Con mucha precaución, le habló de cualquier cosa, sabiendo de su fama de escurridizo. Según Rafael, si alguien le hace alguna pregunta respecto de su trabajo o de su vida, dice ser otra persona. Los que lo conocen, protegen su anonimato. De ese modo, la novia del amigo de Rafael se encontró con Trivesan varias veces, siempre de rigurosa casualidad, hasta que entró en confianza y el viejo le confesó que, en realidad, era escritor.
-¿Ah sí? ¿Y qué cosas escribe Usted?
-Bueno... puedo mostrarle alguna cosita, si no le incomoda. A ver qué le parece...

Y así fue que ella empezó a recibir los textos de Trevisan. La nota simpática es que ella hizo toda la movida por amor, para que el novio tuviera acceso a su ídolo (cuya obra y existencia ella hasta entonces ignoraba). Pero él, por respeto al gran escritor, nunca quiso que ella se lo presente y ni siquiera se permite leer de ojito los inéditos del maestro, por más que se muerda las manos de curiosidad. Agrega Rafael que el viejo tiene un librero amigo, encargado de la tarea de recopilar historias, que alguna gente deja por escrito en la librería o le cuenta al librero y que Trevisan, a veces, recicla en sus propios textos, incorporando algún detalle o la historia entera. No entendí bien el mecanismo, ni cuál es el pacto, ni quiénes son los que dejan sus historias.


Recién, en el camino de regreso de Curitiba, en la escala de Porto Alegre, encontré en la librería del aeropuerto un libro de Trevisan. Los cuentos que leí, de la recopilación A gorda do Tiki Bar, son bastante picantes, al límite de lo pornográfico, con ilustraciones a tono (foto arriba). Más de uno trata de fantasías de sumisión sexual de una jovencita con un hombre mayor, siempre narrado, con abundante obscenidad, desde el punto de vista femenino. Dos cuentos describen con lujo de detalles el tórrido encuentro entre una joven estudiante y su profesor. El encuentro casual de la chica con Trevisan cobró de pronto otro cariz. Me imaginé qué pasaría por la cabeza de la novia del amigo de Rafael al leer los escritos lujuriosos del maestro. Me pregunté también cómo serían luego los encuentros, cargados de tensión sexual, para la "devolución" de lo leído. También pensé en qué ratones bizarros se haría el amigo. A lo mejor, sólo se trata de literatura.

Ahora que pongo todo esto por escrito, por otra parte, me surge la sospecha de que el amigo es un personaje de ficción y que a lo mejor no es otro que Rafael el que deja sus historias en la librería Joaquím.
-¿Vas a hacer una película sobre Trevisan?
-No sé, no sé. No creo que sea posible.
-Pero te gustaría.
-Sí.
-¿Sería autobiográfica también?
-Sólo un poco.

-Andrés Di Tella


Anotado el lunes 25 de octubre en el vuelo Curitiba - Porto Alegre - Buenos Aires.

miércoles, 25 de marzo de 2009

Andrés Di Tella. O festival dos sonhos


Por Rafael Urban*

Um dia o telefone tocou. O toque, a campainha que imitava o som de um telefone antigo. Sophia Coppola, do outro lado da linha, perguntou em inglês: “Posso levar papai comigo?” Andrés Di Tella, organizador do festival que receberia a cineasta, titubeou. Hesitou, talvez tenha se beliscado para ter certeza de que não era sonho. “Claro, ele pode vir. Mas tem que dar uma palestra durante o evento.” A presença de Francis Ford Coppola, acompanhado de seus filhos Sophia e Roman, no primeiro Bafici, em 1999, foi destaque em todos os diários argentinos.

O Buenos Aires Festival Internacional de Cinema Independente (Bafici) começou, como o próprio Di Tella gosta de frisar, organizado por cineastas. Ao lado dele, a primeira edição contou com Eduardo Milewicz, que hoje mora na Espanha, e Esteban Sapir, diretor do seminal Picado Fino (1993), na coordenação do evento. O Bafici e o Festival de Cinema de Mar del Plata, reativado em 1996 depois de 25 anos, foram as principais pontas-de-lança do cinema argentino nos anos 90. Se o evento marplatense apresentou Pizza, Birra, Faso ao mundo em 1997, o primeiro Bafici levou ao público o segundo longa de Martín Rejtman, Silvia Prieto (1998), e Mundo Grúa (1999), filme de estreia de Pablo Trapero finalizado um dia antes da exibição.

O período marca o início do Novo Cinema Argentino (NCA), que na opinião de Di Tella, como na de muitos outros, é o momento de melhor qualidade na produção de filmes na história do país. E, também, um dos temas da entrevista a seguir.

Di Tella, 50 anos, não é apenas o criador do Bafici como também um dos principais cineastas argentinos. Entre seus colegas de geração, é o único de seu país presente no livro Cine Documental en América Latina, que reúne textos sobre os principais documentaristas da região. No Brasil, fez parte do júri do festival É Tudo Verdade de 2002, ano em que Um Passaporte Húngaro (2001), de Sandra Kogut, um filme que admira, recebeu menção honrosa.

O seu sobrenome soa familiar aos argentinos. Andrés é filho de Torcuato Di Tella, fundador do instituto que recebe o nome da família e que foi um importante local de encontro e fomentação aos artistas na Buenos Aires dos anos 60. A mãe, Kamala Apparao, de origem hindu, falecida em 1994, foi constantemente uma incógnita em sua vida. E a vergonha, a impossibilidade de falar com ela sobre suas origens, a grande motivação para realizar Fotografias – longa finalizado em 2007, em que viaja pela primeira vez à Índia.

Treze anos antes da viagem pessoal para conhecer as origens de sua mãe, Di Tella produziu um ensaio forte sobre a ditadura argentina. Montoneros, una Historia (1994) retrata o grupo que ganhou notoriedade ao responder à ditadura dentro de regras próprias. O documentário ia de encontro à maneira de se tratar a o período militar até então: era direto e não usava das metáforas caras ao cinema do país nos 80 e começo dos 90. Em um dos depoimentos mais fortes, um eletricista empregado em um centro de torturas urbano conta como optou por consertar um aparelho que dava choques nos presos, uma vez que o aparato que estavam usando no lugar causava um dano ainda maior.

Dos nove aos 14 anos, Di Tella morou em Londres, em que era visto pela sociedade como um garoto hindu. Viveria de 1973 a 1977 na Argentina, até que, estourada a ditadura militar, voltaria à Inglaterra, formando-se em Línguas Modernas e Literatura pela Universidade de Oxford. No final dos anos 80 e princípios dos 90, fez seus primeiros filmes, alguns deles para os canais de televisão britânicos Channel 4 e o estadunidense PBS, da época em que viveu por dois anos em Boston.

Hoje, mora em um confortável apartamento na Avenida Forest, em Belgrano, um dos bairros mais luxuosos da capital. Com ele, dividem a residência a sua esposa e os seus dois filhos. Com Rocco, o mais velho dos pequenos, divide a paixão pelos quadrinhos. Uma cristaleira na sala de estar exibe miniaturas dos personagens das Aventuras de Tintin ao lado de outros tantos bonecos e lembranças das viagens da família pelo mundo.  

Desde 2002, dirige o Princeton Documentary Festival, na universidade estadunidense em que também dá aulas de cinema latino-americano e que publicou, em 2006, o volume Andrés Di Tella: cinema documental y archivo personal: conversación en Princeton. Em 2008, a Cineteca Espanhola, en Madrid, e a de Catalunha, em Barcelona, realizaram retrospectivas de sua obra. Em maio, é a vez de Istambul, na Turquia, receber uma mostra com seus filmes. Em agosto, sai seu primeiro livro, Fotografías, um ensaio autobiográfico. A própria história também é tema do próximo projeto para cinema, como o título provisorio de La edad de la razón. Atualmente, Di Tella também escreve, junto con a esposa, Cecilia Szperling, a adaptaçao cinematográfica de Selección natural, romance de autoria de Cecilia a ser filmado en 2010.

No dia cinco de março deste 2009, o cineasta atualizou seu blog (www.fotografiasdeandresditella.com.ar) com um post sobre, justamente, Francis Ford Coppola – a seguir ele conta um pouco mais sobre a ida do diretor ao primeiro Bafici.  

(...)


*Presentación del largo reportaje (¡ocho páginas!) publicado en el último número de Juliette - revista de cinema.

foto: Rafael Urban